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Artigo: Eu quero Victor e Léo na capa da Rolling Stone Brasil

 URL curto: http://bit.ly/aHvjRA

A versão tupiniquim da revista Rolling Stone acabou de iniciar seu quarto ano de história com a seguinte matéria de capa: “As 100 maiores músicas brasileiras”.

Todo mundo gosta de listas, ainda mais quando o assunto é música, e é hábito da matriz americana publicá-las. No entanto, a seleção do tema reflete mais uma vez a linha editorial de pouco risco que a publicação assume, principalmente no tocante às capas com conteúdo produzido no Brasil.

A Rolling Stone brasileira segue o formato adotado pela americana a partir dos anos 90, quando passou a dar mais destaque à cultura pop, embora tenha mantido música, política e reportagens especiais como carros-chefe.

Só que era justamente na capa que a mudança de foco ficava mais aparente: ícones adolescentes da TV e do cinema passaram a dividir o espaço com os astros do rock.

caeNão foi por acaso. Sair na capa da Rolling Stone sempre foi visto como um ritual de aceitação para bandas e artistas, que ansiavam por estar nela como se aquele momento representasse um atestado de qualidade.

Há um pouco de mito nisso, porém. O que a RS fazia, e ainda faz, é observar quem está se destacando e pautar seus repórteres para conseguirem um pouco mais desses sujeitos e produzirem matérias interessantes.

O Nirvana, por exemplo, só foi capa quase seis meses depois do estouro de Nevermind, apenas quando os editores acharam que tinham um bom material em mãos. Em outras palavras, a revista tenta explicar os fenômenos pop para seus leitores.

Muita gente não entende isso. Era comum, nas primeiras edições nacionais, a sessão de cartas estar infestada de leitores indignados por não verem matérias com o Led Zeppelin, o Pink Floyd ou o Black Sabbath. Em suma, queriam as últimas novidades dos anos 70, mais do mesmo.

Os editores cederam e passaram a publicar a sessão “Arquivo RS”, com matérias antigas da matriz, geralmente com dinossauros. O problema maior é que a RS Brasil vem estendendo esse padrão para suas matérias de capa.

Só uma?

As 37 capas da Rolling Stone brasileira até agora assim se dividiram, tematicamente: 21 de música, 8 de TV, 3 de cinema, 2 com modelos, 2 com políticos e 1 com um escritor, sendo 17 gringos e 18 brasucas. Misturando a coisa toda, são apenas 8 capas de música nacional e é aqui que o bicho pega.

Estiveram lá Ivete Sangalo, Marisa Monte, Caetano Veloso, Rita Lee, irmãos Cavalera, NX Zero, Gilberto Gil e a mais recente, a listinha com 100 músicas. Qual o único ponto fora da curva de artistas consagrados e com anos de exposição de mídia? Os emos do NX Zero. Apenas uma capa musical “de risco” em 37 edições. É muito pouco.

iveteAqui não se discute a qualidade ou o valor artístico. O ponto é: ainda há algo de novo que pode ser dito sobre (e por) Caetano, Gil, Rita, etc.?

Eu acho muito mais interessante ler a seguinte pérola: “A gente é tipo meio nerd. Às vezes pergunto pra eles: ‘O que a gente vai contar? A Rita Lee contou que cheirou, avacalhou tudo e não sei o quê. E a gente vai contar o quê? Que terminou o GTA várias vezes?’”, vindo de um dos integrantes do NX Zero, falando sobre seu bom-mocismo.

Eu não vou passar a gostar ou odiar uma banda por causa de uma matéria, mas vou passar a entendê-la. Também não vou detestar uma revista porque ela botou na capa uma banda que acho musicalmente desprezível. A Rolling Stone nos deve grandes reportagens sobre artistas diferentes.

Quero ler uma matéria em que um repórter acompanhe uma turnê da dupla Victor & Léo, que atrai multidões por onde passa. Ou uma que disseque o sistema de vendas do Calypso, que dá aulas de como se aproveitar da pirataria para ganhar em popularidade. Quero ver o fenômeno do tecnobrega, já abordado pela revista, na capa.

A vida sexual e musical de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. O funk carioca. E cadê a Pitty? Eu não quero ouvir esse povo, mas quero ler sobre eles. Nada de entrevistinhas, falo de reportagens. Tem muita coisa interessante para explorar em vez de ficar traduzindo matéria gringa que, pela enésima vez, fala dos motivos que levaram os Beatles a se separarem.

Parece-me que a Rolling Stone Brasil sentou-se confortavelmente na reputação, às vezes equivocada, da matriz americana para não arriscar mais nas matérias de capa. É mais uma questão editorial do que de qualidade. A matéria com a reunião dos Cavalera, por exemplo, foi uma das melhores coisas que eu já li na revista.

Fugindo da música, o perfil do Faustão também estava excelente. Não é falta de gente qualificada para escrever o problema, portanto. É um fantasma clássico do jornalismo: a pauta.

Links:

Capas da RS Brasil: http://www.rollingstone.com.br/edicoes?rp=12

Capas da RS USA: http://www.rollingstone.com/photos/covers

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8 comentários »

  • CássioNo Gravatar disse:

    juro que qdo cliquei no link do twitter pra essa matéria vim com sede de unfollow, “esses caras tão de palhaçada…” mas o texto me fez refletir sobre algo que sempre me perturba. A gente realmente goza com os paus dos caras do 70’s. Nossa novidade, nossa inovação cultural/musicalmente falando, infelizmente são os Vitor e Léo e Calypso da vida, que se tratando de música realmente não merecem muita coisa, mas são o que movem a máquina do pop e promovem essa sede por novidade intrinseca do genero e que lá nos 70’s fez o que hj a gente cultua como clássicos.

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  • Rodrigo CunhaNo Gravatar disse:

    @Cássio: Cássio, imagino o impacto do título hehe. Eu tb sou um que gosto de ler coisas antigas, até pq hoje ouço mais coisas antigas q oisas novas. Realmente não gosto muito do cenário atual, salvo algumas excessões, mas concordo em genero e numero com o artigo do Volpato.

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  • Renato CunhaNo Gravatar disse:

    Não concordo com o Volpato. Funk carioca, Vitor e Léo? Para que eu vou querer ler sobre essa gente. O cara ainda vem falar mal dos Beatles. Nossa, o dia que a RS Brasil atender os pedidos do Sr.Volpato eu nunca mais leio tal revista.

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  • Bruno VolpatoNo Gravatar disse:

    Caro Renato, onde foi que eu falei mal dos Beatles?

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  • César SotoNo Gravatar disse:

    @Renato Cunha: mas onde é que se fala mal dos beatles na matéria acima? realmente, não entendi. ou melhor, quem não entendeu parece ter sido o senhor renato cunha.

    não me entenda mal, muita gente sofre desse terrível problema. lê uma matéria carregado de preconceito por causa do título ou da foto e acaba não entendendo lhufas do que está sendo dito, por mais claro que esteja.

    a matéria não fala mal dos beatles, e sim critica um certo comodismo por parte de muitas publicações, que acaba “lançando” matérias datadas como se fossem a última novidade. enfim, todo mundo sabe que os beatles acabaram. como eles acabaram, por mais interessante que seja, não merece a capa de uma publicação que se considere jornalística. e isso é só um exemplo utilizado. enfim, leria tranquilamente matérias sobre as bandas citadas na matéria (vitor e leo, calypso, etc), pois o pior que pode acontecer a uma pessoa é não conhecer o mundo que a cerca e, por mais que nós não queiramos aceitar, essas bandas estão lá fora, e são populares na maior parcela da população brasileira.

    então, se algum dia a RS decidir ousar mais e o senhor realmente parar de ler a publicação, devo dizer, com todo o respeito, que quem perde é o senhor. talvez a RS não sentirá a sua falta afinal.

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  • Renato CunhaNo Gravatar disse:

    Certamente o leito não quer ler nada sobre Vitor e Léo, pois já são artistas muito divulgados e o público alvo dessa dupla seria mais o povão, exatamente esses que não costumam ler Rolling Stone. E sobre suas turnês, já tem revistas para isso e bla bla bla. Eu estou satisfeito com o formato atual da Rolling Stone, nem sempre agrada a todos, difícil. Concordo sobre a parte do lance de ficar confortavelmente anestesiado pela RS gringa, uma das matérias mais bobas foi a da Lady Gaga, afinal ela merecia capa? Já que a crítica de seu disco foi ruim? Pois é, mas tem gente que gosta e é modinha do momento, quem sabe isso venda. Mas mesmo com suas ressalvas a ‘Rolling Stone Brasil’ continua sendo a maior opção de leitura à respeito de cultura pop.

    O que a Pitty teria para dizer além de suas músicas? Não é uma pessoa polêmica, ela é reconhecida unicamente por sua obra, então fazer uma matéria mais extensa de uma carreira ainda em ascenção não renderia muitas páginas, a não ser que adicionasse um monte de bobeira como o da Lady Gaga.

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  • Bruno VolpatoNo Gravatar disse:

    Aí é que tá, Renato. Eu também não defendo que a RS vire uma revista de artistas populares. A minha idéia é que ela aproveite os bons repórteres e os paute para esses artistas, de vez em quando, para matérias originais e criativas. Um bom jornalista pode, por exemplo, acompanhar uma turnê de Victor & Léo pelo interior do país e contar o efeito desses caras sobre as cidades, o povo local.

    Grandes matérias jornalísticas focam muito mais no que cerca o sujeito principal dela. Basta citar o clássico texto “Frank Sinatra está resfriado”, em que o Gay Talese fez o melhor perfil do cara simplesmente sem ter a chance de entrevistá-lo.

    Outro exemplo: o João Paulo Cuenca, cronista de O Globo, contou na Semana do Jornalismo da UFSC que o Jõao Moreira Salles o pautou para uma matéria sobre um baile funk (daqueles de bandido de verdade) para a revista Piauí, que acabou não saindo por problemas legais. Esse seria o resumo do que eu quero ver na RS: um cara que escreve bem pra caramba, metido num ambiente completamente alheio ao que está acostumado e contando uma história com um olhar diferenciado. Aliás, isso pra mim resume o jornalismo ideal.

    Por fim, só uma coisa: jamais diga que eu falei mal dos Beatles. Seria contra as minhas crenças pessoais.

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  • Anderson BrisolaNo Gravatar disse:

    Concordo com o Volpato a respeito do enfoque da revista, e acho que virou palhaçada mesmo – em alguns aspectos. Agora, há uma diferença entre falar de cultura pop e de cultura brega, como é o caso (infelizmente) da grande maioria destes artistas recentes, que contagiam o povão brasileiro. Acho que os nossos artistas consagrados (há anos) não precisam ocupar as capas da revista, a não ser que realmente façam algo de novo, relevante. Vítor e Léo são um fenômeno que eu – mesmo não curtindo – procuro entender, e também gostaria de vê-los na capa da RS, se for assim.

    Respeito mais o trabalho dos caras do que esses boyzinhos tipo NX Zero, Pitty e Fresno, que infelizmente distorcem e transformam a opinião a respeito do pop/rock brasileiro. Esses caras deveriam estar na capa da Capricho (não estão?) e não na Rolling Stone.

    Excelente artigo, abraços!

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